Como funciona um inventário, do início à partilha?
Um guia para entender, com calma, o caminho que os bens de quem partiu percorrem até chegar, de forma definitiva, às mãos de quem tem direito.
Ter mudado de cidade, morar em outro estado ou ter parentes espalhados pelo país não impede resolver uma herança. Entenda o que, hoje, dá para fazer remotamente.
Uma dúvida aparece com frequência entre quem não mora mais na cidade onde a pessoa faleceu, ou entre famílias com herdeiros espalhados por estados (às vezes por países) diferentes: dá para resolver tudo isso à distância, sem que todo mundo precise se deslocar?
Na maior parte dos casos, é possível. Boa parte do inventário pode ser conduzida remotamente, porque os documentos se reúnem de forma digital, os herdeiros podem ser representados por procuração, e tanto o judiciário quanto os cartórios passaram a admitir, em muitas situações, atos feitos à distância. Isso não significa que cada detalhe seja sempre 100% on-line, já que alguns atos, ou alguns estados, ainda têm suas particularidades, mas a distância, hoje, raramente é o que segura um inventário.
No inventário extrajudicial, o acordo da família vira uma escritura pública, e surge a dúvida natural sobre essa assinatura: ela precisa ser presencial? A resposta é: nem sempre, porque os cartórios passaram a contar com uma plataforma de atos notariais eletrônicos que permite, em certos casos, lavrar escrituras por videoconferência, com assinatura digital, viabilizando concluir o inventário sem que os herdeiros estejam todos no mesmo lugar.
A isso se soma o fato de que na via extrajudicial a família escolhe livremente o cartório de notas, sem ficar amarrada à comarca onde a pessoa faleceu, o que ajuda bastante quando os envolvidos moram longe uns dos outros.
Como funciona no procedimento judicial?
Quando o inventário precisa correr judicialmente, a distância também perdeu boa parte do peso que já teve. Os processos hoje tramitam em meio eletrônico, e o advogado atua representando os herdeiros com base em procuração, enquanto eventuais audiências podem, em muitos casos, acontecer por videoconferência, de modo que o cliente raramente precisa ir até o fórum, porque o acompanhamento do processo se faz pela tela, do começo ao fim.
E quando um herdeiro está no exterior?
É uma situação mais comum do que parece, e tem solução, pois o herdeiro que vive fora pode outorgar procuração para ser representado no inventário, cumpridas as formalidades próprias para documentos vindos de outro país, como a tradução e os procedimentos de validação internacional. São etapas que pedem um pouco mais de cuidado e de antecedência, mas que não obrigam ninguém a atravessar o oceano só para assinar papéis.
Poder fazer à distância não significa que tudo se resolva sozinho num aplicativo, e alguns pontos continuam exigindo cuidado. A possibilidade de realizar atos remotamente, em especial a escritura por videoconferência, varia conforme o estado, o cartório e as particularidades do caso; a procuração precisa ser bem feita, com os poderes corretos, sob pena de travar o processo no meio do caminho; e segue valendo a condição que sustenta todo inventário de cartório, o consenso entre os herdeiros. A tecnologia encurta a distância geográfica; o desacordo entre as pessoas, esse continua precisando de outra solução. Por isso, fazer à distância funciona melhor quando há, do outro lado, alguém organizando os atos na ordem certa e conduzindo cada etapa com cuidado.
Se a distância é a sua maior preocupação, comece reunindo de forma digital o que dá para obter de onde você está, como a certidão de óbito, os documentos pessoais e um primeiro levantamento dos bens, já que boa parte disso se resolve pela internet. Em seguida, mapeie onde estão os herdeiros, em quais cidades e se algum vive fora do país, porque é esse "mapa" que vai definir como organizar as procurações e qual via faz mais sentido. Com isso desenhado, conduzir o inventário à distância passa a ser, sobretudo, uma questão de planejamento.
Para entender o processo por inteiro e a escolha entre as vias, valem os artigos relacionados. o guia geral do inventário e a diferença entre as vias.
Durante muito tempo, morar longe da cidade do inventário significava semanas de deslocamento, dias em filas e gastos de viagem; entre a digitalização dos serviços e a representação por procuração, esse retrato ficou para trás, e o inventário pode, em grande medida, ser conduzido de onde você estiver. Como cada caso tem suas particularidades (a via, o estado, o lugar onde cada herdeiro mora), vale entender o que se aplica à sua situação antes de presumir que haverá viagem pela frente, e uma orientação jurídica adequada ajuda a planejar essa condução remota com segurança, respeitando as formalidades de cada etapa. Cuidar de famílias em qualquer ponto do país é, hoje, parte do que o trabalho jurídico permite.
Um guia para entender, com calma, o caminho que os bens de quem partiu percorrem até chegar, de forma definitiva, às mãos de quem tem direito.
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